Nyau – A pura cultura Africana

Buenas,

Imagine ver esta criatura olhando para você a apenas alguns metros de onde você esta.

Oi?

Pois é, se você se sentiu um pouco intimidado, saiba que eu também senti o mesmo. Alias, ao ver essa cena, vi algo em torno de 100 crianças correndo desesperadamente para todos os lados. E foi exatamente assim que começou uma das experiências culturais mais legais que eu tive aqui na África.

O grupo aguardo para se apresentar de costas para o público. É muito legal por que tem toda uma magia em cima deles... Apenas olhar assim já legal.

Experiência simples, que se resumiu a um show cultural. Mas um show cultural que me impressionou por diversos motivos: Pela força e cultura do grupo, pela dança em si e obviamente, pela beleza das vestimentas dos dançarinos.

Neste último fim-de-semana que passou (sim, estou escrevendo logo após o acontecido de tão “emocionado” que fiquei com o show) aconteceu o Festival de Desporto e Cultura da Vila de Moatize, na província de Tete, onde moro. Nesse festival, tiveram diversas apresentações culturais, onde eu nem sabia que haveria este show em específico.

No geral, eu já conhecia o tipo de dança e batuque da região de Tete, por já ter visto algumas outras apresentações, porém nada como este grupo chamado Nyau (Lê-se Nhau).

Agora de quase frente.
*medo. Não me canso de dizer isso.
Grupo entrando para o show.

Ao invés de reescrever tudo que li em outros blogs ou sites da internet, vou colar aqui frases encontradas que explicam o grupo e colocarei a citação do lado, principalmente de o blog “Uai, Africa!” (ótimo por sinal) de uma amiga daqui de Tete, a Anna Paola. Meus comentários serão no meio de tudo isso, se necessário.

“O Nyau ou “Gule Wankulo” é uma dança exótica milenar praticada por homens das comunidades situadas ao norte do rio Zambeze e adquire conotações diferentes de acordo com a ocasião em que é praticada, se em rituais de iniciação masculina, cerimônias fúnebres ou por puro entretenimento. Nyau significa o próprio dançarino, quando já paramentado por suas vestimentas e adornos e “Gule Wankulo”, “a grande dança”.

Sua origem está associada ao surgimento do Estado Undi em meados do século XVII – essa manifestação popular de elevadíssimo valor cultral corre risco de extinção e é ameaçada pelo progresso do mundo globalizado avançando sobre terras africanas, pela educação formal cada vez mais substituindo a tradicional limitando a transmissão do conhecimento da dança entre as gerações, assim como pela constante migração do homem do campo para a cidade e entradas culturais do mundo globalizado nas culturas tradicionais.

Reconhecida toda a sua relevância como meio de integração social e ajustamento dos comportamentos individuais do sujeito às suas raízes, regras e normas da sua comunidade bem como por seu valor universal ao preservar propóstitos culturais típicos dos grupos étnicos Chewa, Achipetas e Azimbas, foi considerada pela UNESCO, em novembro de 2005 como “Obra-Prima do Património Oral e Intangível da Humanidade” e desde então ingressou na lista das 90 obras protegidas pelas nações unidas.” http://uaiafrica.blogspot.com/2010/04/festival-de-nyau-em-chiuta-tete-mz.html

Voando.
Essa mascara me deixa confuso, a posição dela no rosto dele. Como eles imitam muitos animais, muito de seus "passos" de dança são bem próximos ao chão
Nyau
Enquanto uns dançavam... Essa cena BIZARRA. Parece a mesma foto lá em cima, mas aquela foi um pouco antes, enquanto ele me olhava. Juro que deu medo... ehehheeh

“NYAU é uma dança exótica praticada por homens da comunidade chewa ou nyanja. Ao ritmo de tambores e coro das canções de mulheres, os dançarinos aparecem com vestes cheias de ornamentos produzidos de tiras de trapos, pedaços de sacos, fibras de arvores, penas de águia ou avestruz, entre outros materiais susceptíveis de produzir adereços típicos.

A dança nyau, ou gule wankulu, como é também conhecida, pratica-se a ritmo rápido e estonteante de tambores acompanhados do coro das canções das mulheres. Os dançarinos usam máscaras e tradicionalmente se apresentam com o corpo nu besuntado de cinza, lama vermelha ou branca, cores que entre os praticantes, possuem significados tradicionais diferentes em função do contexto em que a dança é feita, se é nos ritos de iniciação, funerais ou entretenimento.” http://group.xiconhoca.com/2008/12/27/nyau-o-ressuscitar-de-uma-danca-milenar/

Nyau é mais do que um simples conjunto de danças, é um estilo de vida. Estilo de vida que foi criado para desenvolver um grupo coeso de pessoas, disciplinadas e cooperativas entre si. Há muito segredos e muitas coisas ocultas ao grupo, graças a seu discrição e pouco acesso que pessoas de fora a sua cultura e costumes.

As marcaras representam animais ou sátiras de humanos, usadas também como uma forma de crítica social. Os gritos soam como os animais que representam, que podem ser os mais diversos e as danças também, além de muitas vezes utilizar gestos obscenos ou de crítica ao homem branco, os colonizadores.

Uma membro do Nyau, começa desde de pequeno a ser educado para se tornar um. A iniciação e grande parte de seu desenvolvimento começam no meio da floresta, onde ninguém tem acesso. Os que tentam acessar essa cultura sendo de fora do grupo, correm risco de morte. Há muitas histórias de pessoas que foram mortas ou machucadas seriamente por membros do Nyau por tentarem invadir seus encontros, ou tentarem violar seus valores e costumes.

Eles sempre se apresentam com as caras tapadas por marcaras ou tecido, penas, etc. Em geral suas identidades são um segredo.
Mascara, penas, pedaços de pano. Loucura linda.
Nyau
A dança como um todo é muito rápida, os giros também.

“A mitificação do nyau foi constituída com base no segredo imposto pela violência. Aníbal Aleluia, em “Mbelele e outros contos”(ed. AEMO, 1987), escreve que nyau é uma grave iniciação que exige muito sacrifício virilidade e heroísmo: “só pode dançar nyau quem tem coragem para arrancar os olhos à sua própria mãe, matar um irmão e beber com a caveira deste o sangue do pai”.

Não é uma simples iniciação para dançar, é acima de tudo a criação de uma elite”que se distingue dos outros pela coragem, o que durante séculos foi usada como prova de verdadeiro “macho”. Fazer parte da secreta sociedade nyau é mostrar a sua virilidade. A coragem e respeitos dos candidatos são desenvolvidos com a interpretação de canções e por castigos físicos.

Os já iniciados ensinam aos novos um vocabulário especial usado para as várias matérias, assim como um idioma esotérico que serve de senha para se descobrir que quem quer ver os segredos do nyau é ou não iniciado e se não for é proibido de entrar no espaço onde se executa a dança. A morte é usada como castigo para os que ousam desvendar ou revelar o segredo do nyau. Concluída a primeira parte de iniciação o rapaz é levado pela floresta através de gestos simbolicamente dramáticos.

Durante este processo, ele deve aprender o valor tradicional do seu clã, a respeitar a propriedade comunal e individual, respeitar os anciões, aprender a honestidade e coragem e tem instruções sexuais.

Com um chão de terra solta e movimentos nos pés muito rápidos, nada mais normal do que levantar uma grande poeira. As vezes era tanto que atrapalhava as fotos. Detalhe para a banda ao fundo, composta por homens e mulheres.
Mais dança!

 

Detalhe para o corpo banhado em barro.
Dançarino e a banda ao fundo.

Diz a lenda que o nyau foi criado por crianças quando apascentavam gado e brincavam de imitar animais. Elas arrastavam-se e prendiam a atenção dos adultos que copiavam as brincadeiras infantis e outros, para não se exporem, serviam-se de máscaras enquanto as executavam.

Com os homens a dominarem por completo o nyau, as mulheres da tradição chewa originaram o seu tipo de nyau, o chingondo, que se rivalizou com o masculino. Esta dança era guardada em segredo para que os homens não soubessem de nada que se passava, era lá onde elas aprendiam a cuidar do lar e como tratar dos maridos. Os homens invadiram o segredo do chingondo e fundiram as suas estruturas com as do nyau masculino que originou a grande dança gule wamkulu, que é o actual nyau.

Nesta fase, os chefes reivindicaram a propriedade do nyau, as pessoas passaram a executá-lo em seu nome. O nyau tornou-se sobrenatural e deixou de cometer erros porque estava sobre todas as leis e sobre todos homens.

Segundo uma recolha feita por Afonso Jolomono, na cerimónia fúnebre de um chefe, “o nyau pode matar antes do chefe ser enterrado, pode levar o corpo do morto fazer dele um traseiro, pode matar galinhas, e outros animais sem permissão, e sua carne serve para alimentar os participantes no funeral. Nyau pode tudo mas depois de o indivíduo tirar a máscara, volta ao normal e respeita todas as leis da sociedade”. Depois de passar o momento de “possuído” pelo nyau, o indivíduo volta a cumprir todas as regras sociais.” http://www.info-tete.co.mz/index.php/en/generalinformation/culture

Em dupla.
Novamente em dupla.
Palmas. Clap, Clap, Clap...

Acho que lendo isto que já escrevi, dá pra ter uma boa noção do que é a cultura Nyau, mas o que quero falar aqui, é que o show deles é espetacular. Existe uma magia envolta no grupo, que deixa todos curiosos. O estilo de danças deles é algo lindo, extremamente rápido, agressivo e sexual. Dizem que muitas das letras deles falam de sexo ou coisas do género, infelizmente é um tipo de coisa que tu não pode saber por não ser uma língua aberta a todos.

Ir em um show deles, é sentir-se dentro da cultura Nyau por mais que seja apenas olhando eles dançar. Existe uma magia, que apenas vendo para entender. Espero que vocês consigam sentir um pouco disso com essas fotos que tirei no festival.

Para ajudar um pouco mais vocês, consegui gravar esse pequeno vídeo que mostra a performance de um dos dançarinos rapidamente. Dá para sentir mais ou menos como é.

É nessas horas que tu vê que estar na África, um continente de cultura fortíssima, é uma experiência única.

Ah, e como um bom turista…

...eu consegui uma foto com eles, depois de pedir para me aproximar, é claro. Obrigado a Silma pela foto.

Repito aqui as referências para escrever este artigo, caso alguém queira ler mais a fundo sobre eles.

http://www.info-tete.co.mz/index.php/en/generalinformation/culture

http://uaiafrica.blogspot.com/2010/04/festival-de-nyau-em-chiuta-tete-mz.html

http://group.xiconhoca.com/2008/12/27/nyau-o-ressuscitar-de-uma-danca-milenar/

Abraços!

Tiago

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12 comentários sobre “Nyau – A pura cultura Africana

  1. Tiaguinho!

    Td bem?
    Que legal que tu já conseguiu outra máquina e tirou fotos belíssimas.
    Nossa, realmente é algo bonito e hiper diferente.Te confesso que quando abri teu blog me assustei das figuras.
    Quanta experiência de vida hein!!
    Um grande bj com saudades.
    Dinda Lia

  2. Tudo bem, meu velho!

    Está todo mundo ocupado com muita coisa. Mas a qualidade das tuas publicações é um show, não dá para deixar de ler/olhar. Poderia ser correspondente em Abu-Dhabi (HEHE). Você aproveita muito bem as coisas boas da Africa.

    Abração.

  3. Olá!!!
    Finalmente tomei coragem de comentar aqui no seu blog, eu leio sempre que dá, e olha, você consegue me superar em volume de escrita! uahauhaa Mas eu me empolgo sempre e leio até o final. E o melhor de tudo é ver como Moçambique te empolga, da pra perceber isso pessoalmente e pelo blog, e esta cultura toda é intensa e viva, muito bom!
    Beijos

  4. Viveste uma experiencia que eu acredito que ha muitos Mocambicanos como eu que gostaria de ter estado no teu lugar.
    Esta materia esta me sendo util agora, descobri esta informacao porque estou a fazer uma pesquisa sobre Nyau (trabalho de investigacao da Faculdade). Estou cursando Gestao e Estudos da Cultura.
    Muito, muito agradecido pela materia.
    Um Abraco.

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